27 de mai de 2014

Sem limites


Etimologicamente falando, LIMITE vem do latim “limes”, “caminho entre dois campos, fronteira, sulco” e em língua portuguesa, é um substantivo que sugere fronteira, barreira. Nas relações compostas dentro do acrônimo BDSM, o conceito de limite pode ser interpretado de forma intuitiva, pelo menos parcialmente.
Poderia escrever um tratado, mas vou experimentar o lado pessoal e abrir meus espaços íntimos. 
Quando iniciei a negociação com o Dono, o primeiro passo foi definir os limites. Daí surgiram muitas vertentes entre limites que são intransponíveis e limites que podem ser vencidos. 
No primeiro momento, estávamos rodeados de objetos e de conceitos que tiveram outra história, outras histórias, e então, submissa e Dominador traçaram juntos os limites da futura relação com base em nossas vivências precedentes. 
Entretanto, surpresa da vida, essa obra inacabada e inconstante! Eis que, mesmo depois de discutida e embasada, a relação que seria mantida na tríade do “são, seguro e consensual” passou para “risco assumido”. Não sei explicar em que momento aconteceu, mas acredito que foi quando as mãos do Dominador fecharam a coleira em meu pescoço e Ele empunhou o chicote.
Ele assumiu a responsabilidade, eu assumi os riscos; não há safe, não há limites, não há espaço para discussão. O que ocorre é uma confiança irrestrita de ambas as partes. 
O Dominador confia que a submissa é capaz de trabalhar seu aprimoramento físico e emocional e a submissa confia que o Dominador terá tenacidade de aplicar práticas e desejos toleráveis.
É um conceito diferente, onde a palavra limite dá lugar à palavra TOLERÂNCIA, que provém do latim “tolerantia”, que por sua vez precede de “tolero”, e significa suportar um peso ou a constância em suportar algo.
Ainda falando na forma intuitiva própria ao BDSM, tolerar é qualidade daquele que suporta com bom humor e amor as circunstâncias que não lhe são agradáveis ou prazerosas. 
Essa diferença de abordagem necessita ser preenchida por um requisito apenas: honestidade. A submissa não pode indicar que gosta ou que suporta práticas físicas ou  psicológicas além das quais está preparada, pois não há “safe” para lhe salvar, assim como o Dominador não deve praticar atos para os quais não está apto, pois inexistindo safe, as conseqüências podem ser sérias. E há conseqüências, pois ambos assumiram os riscos. Não tem rascunho, essa relação deve ser encarada com a maturidade daqueles que respondem por seus erros e acertos. Para a falta de contentamento só há uma cura: entrega da coleira.
Eu, submissa, preciso ter o dom de observar, escutar, sentir e até me antecipar aos anseios do Dono. Trabalhar os meus pontos fracos e oferecer a Ele seu desejo encarnado. É a busca pela perfeição, não a perfeição de mulher, mas a perfeição de submissa para os padrões e quereres do Amo, porque cada Dominador deseja um tipo de submissa. A mim, cabe identificar Seu desejo e me aprimorar.
Limites? Não, não há limites. Há apenas práticas ou situações que ainda não tive tempo de vivenciar. 

Bia de Melbor
escrava, SP


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SR. DOM de GORDA

30/05/2014

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4 comentários:

{Λїtą}_ŞT disse...

Boa, Bia de Melbor!
Essa questão dos limites é sempre controversa mas penso muito parecido com vc.
O SSC só existe mesmo no momento da negociação, uma vez dentro não há que se sentar e negociar cada prática numa eterna discussão sobre o que se pode e o que não se pode fazer.
Se o poder foi dado ao Dono está consolidado o SSC e assim segue a D/s pela confiança depositada, pela cumplicidade, pelo querer do Dono e, como vc disse, pela tolerância da submissa.
Muito bem pensado, parabéns pela abordagem... surpreendente.
Beijos de Amália.

Maya Doll disse...

Bom ver que não é tão diferente assim o caminho que escolhi. Meus limites são apenas uma moldura que, usados como referência, ajudam a escolher a pessoa certa a estar comigo. Depois de escolhida, existe um mundo a ser explorado. Entretanto eu ainda acho a safe importante ou um grande respeito do Dominador diante de situações que mesmo eu não identificava como "limites". No caminho das descobertas, podemos nos deparar com coisas que estão fora da nossa capacidade de assimilar, assim como situações especiais em que as marcas poderão comprometer a vida baunilha, por exemplo. É para esses momentos que a safe pode ser útil... bem, não precisa ser safe, pode ser apenas um "não posso, Senhor", embora em alguns casos a safe tenha gosto de vitória para o Dono kkkkkkk.

Adorei o texto. Beijos mil.

Amar do Sr. DIABLO disse...

miBiAmada!

Que texto magnífico. Parabéns pela clareza e pela determinação em sua submissão. É disso que é feita a verdadeira submissa.

Para mim não existe o SSC, acho-o uma afronta ao DONO e eu, Amar Yasmine do SR. DIABLO, dispenso o que chamam de "são", de "seguro" e de "consensual".
Primeiro pq o Sadomasoquismo nunca foi "são", muito menos "seguro".
Por fim, pq na minha opinião, onde há consensualidade não há submissão. Isto é coisa de submissas oriundas do famigerado 50 Tons de Bobagem.

Beijos miBiAmada tão bela!

AmarYasmine do SR. DIABLO

susanasub disse...

Facinante texto, vem bem ao encontro daquilo que nós gordinhas queremos ler, ou seja, que também somos desejáveis com formas avantajadas, sendo submissa,já me vi muitas vezes sendo excluida por ser gordinha, Obrigada, Senhor, hoje depois de ler esse texto, me sinto muito mais segura na escolha que fiz.