26 de mai de 2016

Como o BDSM entrou em minha vida.

Em 2004 me indicaram uma leitura que muito me surpreendeu e que me deixou curiosa, e como não dizer excitada: "Falsa submissão".
Por incrível que pareça ao ler outro livro do gênero "O diário de uma submissa", 11 anos depois, foi que descobri a sigla BDSM. 
E foi assim que comecei a trilhar um caminho sem volta.
Atravessei o portal e o medo naquele momento tomava conta de mim. 
Tentava de todas as formas me compreender e tentar desvendar aonde me encaixaria nesse mundo intenso.


Fui assediada por ser novata e inexperiente. Vivi momentos de incertezas e indecisões sem saber que caminhos seguir. Precisava imensamente de conhecimento do meio, de me autoconhecer e de me revelar. Mas como? 
Esse mundo cheio de pluralidade me fascinava... mexia comigo de uma forma inexplicável.
Eu sempre gostei muito do ato sexual de certa forma, me sentir "livre". Mas também me sentia presa a algumas convenções que suposta e erroneamente faziam com que a liberdade fosse tolhida perante a sociedade .


Então quando me vi nesse mundo imaginei que seria uma experiência prazerosa. Contudo ainda não atentava para me auto preservar. Queria "tudo" e queria rápido. 
Foi então que comecei a descobri que não era bem assim, que era algo maior, algo que estava invadindo minha vida como uma avalanche. Não paravam de cair terras e pedras que me machucavam. Mas não me fizeram parar ou desistir. Encontrei motivos para ficar e os véus, um a um se desvelaram.


Compreendi que  tinha que abrir o cadeado da minha submissão e deixar fluir, contudo, tudo isso não é fácil, tropecei muito. Pelo menos comigo foi assim, o que não quer dizer que com outras vai ser do mesmo jeito, pois cada um é cada um. 
Cada gesto nosso, cada  palavras e atos são observados.


Bem, continuo a caminhar passo após passo. Não espero que me compreendam e entendam minhas mazelas BDSM.  Mais do que isso, é um modo de querer viver e se realizar vivendo.
BDSM é brilhante, transparente  verdadeiro, dinâmico, intenso e dolorido. Seguro (para quem sabe praticar), protetor, saudável e de máxima intensidade.
Significa (BDSM - bondage, e Disciplina, Dominação e Submissão, Sadismo e Masoquismo, esse significado está disponível em livros e sites do gênero).


Encontrei alguns mal intencionados pra dar o bote e abocanhar as desavisadas como eu. Depois de dar alguns passos encontrei o motivo para ficar como descrevi acima. Tive sorte ou foi instinto, sei lá. Encontrei alguém para compartilhar comigo tudo isso.
Me envolvi em minha primeira relação  (D/s). Vivi com toda  intensidade e com sentimentos, por que no BDSM, não pense que vai encontrar o primitivo amor baunilha. 


Aqui podemos ser dois, três ou mais. Não tenho medo de experimentar e ser feliz. Abri mão de meus desejos e vontades. Até no momento de partir de uma relação D/s abri mão das minhas vontades.
Dentro desse mundo encontrei pessoas que para mim seria até difícil falar sobre elas, por isso me reservo o direito de apenas guardá-las como um pequeno egoísmo meu. 
Olho para mim hoje e é como diz Clarice Lispector " O futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido". Até a próxima.


 Schanna sub



11 de mai de 2016

A DIVERSIDADE E A VERDADE DE CADA UM

O BDSM, ao longo do tempo, vem se metamorfoseando. O que era inicialmente definido em uma ótica muito crua e restrita, apenas o SM, evoluiu com a inserção das duas outras consoantes; isso, no meu entender, trouxe um sentido mais abrangente, significativo e apropriado, afinal o BDSM atual é muito mais do que reflete a dualidade Sadismo e Masoquismo.

O que temos atualmente inserido sob a égide dessas quatro letras é uma infinidade de Fetiches e Comportamentos, que desde a época das listas até hoje, nas redes sociais, tem sido motivo de constantes questionamentos, pareceres e discussões. O BDSM ficou departamentalizado, embora não se trate de “setores estanques”.


Com bom senso e respeito, consegue-se permear por estes e conviver com as diversas opiniões, sem choques. Aliás, choques é o que não falta por aqui.
O BDSM passou a ser como a impressão digital. Cada um tem a sua, mas todas com aquelas ranhuras e linhas concêntricas como significado de “uma só essência”.

Apesar dessa diversidade, temos algo em comum, que deveria ser um fator de união.
Somos considerados diferentes; somos (todos) a exceção. Somos contracultura.
Somos estereotipados, criticados, marginalizados... E outros tantos “ados”. Além disso, não temos visibilidade social, como há em outras “civilizações”, especialmente na seara norte-americana, ou na europeia.

Por aqui, os conceitos da moral vigente não permitem que sejamos respeitados e entendidos como um grupo de pessoas normais, que trabalha, paga seus impostos, assume responsabilidades, etc. Há o “status quo”, de uma falsa moralidade, impregnado na mídia, que permeia a sociedade cerceando a visão, o entendimento e a razão.


Neste ponto, até que o contestado "50 Tons de Cinza" serviu para mostrar que existimos e que não somos um bicho de sete cabeças, ou a besta do Apocalipse. É muito certinho e bonitinho, é bem romanceado, mas tem lá o seu valor; afinal o BDSM real não exclui a passionalidade.
Muito das relações primam por esta vertente. A gente se apaixona por aquilo que faz, ou pelo outro lado, seja a pessoa, o personagem, ou ambos.
Quanto a mim, jamais saí totalmente ileso de uma relação, nem tenho a pretensão de que isso aconteça.


Penso que certas coisas na vida não admitem o meio termo, ou você entra inteiro, ou é melhor não se aventurar. Por outro lado algumas flores têm espinhos, então...
Amo ao que tenho e principalmente ao que conquisto; então a minha escrava não seria a exceção.
É assim: O BDSM tem os bônus e também os ônus!
Mesmo assim, sou daqueles que acreditam que o melhor é manter o BDSM na obscuridade, pois quanto maior for sua exposição, maior será a pressão. Isso sem contar com o assédio de curiosos, e pior, dos arautos da hipocrisia, que sempre aproveitam para criticar.

Eu gosto é assim, na obscuridade, no gueto. O BDSM é fascinante, e continua fascinante mesmo depois de tanto tempo. Por que há pessoas fascinantes, essa é a questão. Pessoas inexpressivas, que não fascinam, simplesmente desaparecem com o tempo. Aqui não é diferente do que ocorre na natureza, há sim, uma seleção natural. A força de cada um está na sua autenticidade e só os autênticos sobrevivem.

Certamente a metamorfose do BDSM não chegou ao fim, as combinações das quatro letras tem um limite, mas não a imaginação e a criatividade do ser humano, ou a diversidade de novos e inimagináveis comportamentos. Conviver nessa verdadeira galáxia, em que todos brilham é fácil, basta ter a noção do próprio brilho e respeitar os demais.


Werther von AY erschaffen


*Texto publicado originalmente no blog WERTHER e {W_[amar yasmine]}, em 10/05/2016.