17 de ago de 2014

O BDSM de cada um segundo suas obras.

Revendo alguns e-mails e tópicos discutidos em listas, a maioria já extinta e outras em franca agonia, com a criação de formas outras de mídia, como as ditas redes sociais, pude perceber o quanto incomodava às pessoas adeptas do BDSM, nem todas, é claro, o fato de estarmos classificados como parafilia, no famoso CID, o CID 10.

Particularmente, nunca entendi a isto como um problema. Não deixei minhas convicções em relação ao BDSM mudarem por aquilo que diz a cartilha da “Ciência”, ou da “Sociedade” em que vivemos. Se mudei, foi em função do que aprendi com as pessoas sérias que conheci, e deduzindo do que vivenciei. Minha cartilha sou eu e os meus princípios, estas são as minhas verdades; salvo quando estou sob o Domínio de alguma Rainha (séria). Então, obedeço e sigo as verdades e convicções Dela, como atualmente.



O BDSM sempre foi praticado de uma forma velada e fechada, um meio bastante intimista onde qualquer um pode ser livre para (pelo menos em tese, poderia) dar vazão às suas fantasias e preferências. O parênteses deve-se ao fato que, mesmo dentro desta seara há quem critique A ou B, por discordar da sua visão, o que (novamente, em tese) não deveria acontecer. Isto foi patente em várias ocasiões, nas listas.
Aliás, este foi um fator preponderante para a iniciar um êxodo e uma consequente derrocada das listas.

Foi nelas que presenciei muita discussão boba, tipo – O meu BDSM é diferente, ou - Isto não é BDSM. 
Porra! BDSM é o que os envolvidos (Top/sub) fazem, e pronto. Se eles dizem que este é o BDSM deles, quem de nós, cá de fora, pode opinar na senzala alheia!?
Ou então, coisas como questionar a capacidade de um Switcher em dominar. Quem sabe disso é que a ele serve,  como sub.

E tantas outras bobagens como - Top não pode isso! Ora, se não pode, então não é Top. 
Enfim, coisas realmente bobas, idiotas mesmo, que realmente só serviram para afastar muita gente do meio.
Faltou Maturidade, Ética, Educação, Bom senso,..... E sobrou Ignorância, Preconceito, Egocentrismo, Babaquice mesmo.....

Somos todos marginalizados!
O BDSM, hoje, pode ser entendido como um grande guarda chuva que abriga as diversas nuances de comportamento, fetiche e sexualidade, que coexistem, respeitando-se (?) mutuamente. Não é o que se vê, e não é, ainda, o melhor dos mundos, mas isto pode vir a acontecer. 
Confesso que nunca entendi bem, por que motivo muitos se incomodavam com esta situação de “excentricidade”, para eufemizar um pouco, com a qual nos rotulam.

BDSM é como o Sexo, então a gente não sai por aí, que nem cachorro, fornicando à luz do dia, ou em cada esquina, para quem quiser ver. Se as sessões e/ou Plays configuram um espaço só nosso, então porque tanto alvoroço em relação à crítica da sociedade? E o pior é que só criticam aquilo que nós mesmos deixamos transparecer!

Eu não preciso sair pelas ruas vestido em couro, ou com uma grande coleira no pescoço para dizer que sou BDSM, ou que sirvo a uma Rainha. Sirvo, Ela sabe, eu sei, e pelo menos, por agora, é o que basta.             Salvo alguma situação tipo humilhação pública, entendo isto apenas como uma demonstração de Exibicionismo. 

Entendo, mas não me afino, a quaisquer (desnecessários) arroubos de Exibicionismo/Vaidade, por parte de alguns, mas repito - quem tem que saber disto são apenas as pessoas envolvidas na prática.
Que as pessoas “ditas normais” tenham qualquer reação como estas, é perfeitamente normal e aceitável, até mesmo pelo desconhecer, pela curiosidade, por ser novidade…., coisas como o efeito 50 tons de cinza. Coisas que não se aplicam a quem é do meio.

E sempre que havia alguma menção ao BDSM na mídia (televisiva), era seguida por um “frenesi” sem explicação; muitas vezes motivado pela vaidade de ser citado/mostrado, outras pelo descontentamento decorrente das críticas, como no caso de uma reportagem feita num antigo espaço em São Paulo (V * * * * * a). Na época, criticaram principalmente as condições de higiene do local.

Evocando o Existencialismo de Sartre, que reza sermos condenados à liberdade, e responsáveis por nossa existência; deduzo que o a realidade do BDSM, hoje, que não é percebido como um conceito, estilo de vida, ou como algo coletivo, seja mera consequência das nossas ações e do pensar (?) pequeno, que ainda exercemos.

Vamos ver o que o destino – que nós mesmos traçamos – nos reserva. Talvez, no uso da nossa liberdade, consigamos ver a real necessidade de pensar.



Werther von AY erschaffen.

3 comentários:

{Λїtą}_ŞT disse...

Olá, Werther! Sua coerência é sempre tão evidente que fica difícil comentar.
Sempre me foi difícil tb entender essa necessidade que as pessoas têm que o mundo lá fora nos aceite. Não vejo a utilidade disso, uma vez que não sairemos à rua vestidos de vinil, de quatro e sendo puxados pela coleira... ou será que tem quem queira isso?
Preferências sexuais, mesmo que seja um estilo de vida, são coisas nossas que não precisamos revelar a ninguém, mas talvez algumas pessoas tenham uma necessidade muito grande de se mostrarem "diferentes" pela insipidez de suas vidas.
Sendo uma exibicionista posso parecer hipócrita dizendo isso mas meu exibicionismo é parafílico, de expor as partes íntimas e me excitar com isso, estou bem longe do exibicionismo do ego.
Parabéns por mais essa valiosa contribução.
Quero destacar algumas pérolas neste texto, tarefa difícil pq tudo é pérola...

"Somos todos marginalizados!"

"BDSM é como o Sexo, então a gente não sai por aí, que nem cachorro, fornicando à luz do dia, ou em cada esquina, para quem quiser ver."

"Ou então, coisas como questionar a capacidade de um Switcher em dominar. Quem sabe disso é que a ele serve, como sub."

"E tantas outras bobagens como - Top não pode isso! Ora, senão pode, então não é Top."

Beijos

Rebeca disse...

Boa noite

Texto muito lúcido. Cada um com suas "verdades", fetiches e maneira de viver o SM. O que os outros pensam, seja lá fora ou mesmo aqui no "meio", realmente não é importante. O importante é ser coerente com o que fala, sente e faz.

Muito bom!!

Anônimo disse...

O BDSM tem suas regras mas a maneira de cada um viver sua relação é o Dono que decide, que conduz e ninguém tem o direito de dizer que está errado. Concordo com vc, o texto é muito bom, muito claro e inteligente.
Parabéns.

Clara sub